sexta-feira, 20 de maio de 2011

Fukushima: daqui pra frente, energia nuclear só se for pra fazer bomba! (?)



Matéria da Editoria: - Meio Ambiente - 11/05/2011

Acidente em Fukushima abre era pós-nuclear
Fukushima marca o fim de uma ilusão e o início da era pós-nuclear. Os defensores da opção nuclear têm agora de admitir que Fukushima modificou radicalmente o enunciado do problema energético. E que daqui para a frente se impõem quatro imperativos: parar a construção de novas centrais; desmantelar as que existem num prazo máximo de trinta anos; impor uma frugalidade extrema no consumo de energia; e tirar pleno partido das energias renováveis. Só assim se poderá talvez salvar o nosso planeta. E a humanidade. O artigo é de Ignacio Ramonet.
Ignacio Ramonet - Mémoire des Luttes/Esquerda.net

Data: 09/05/2011

O sismo de magnitude 9 e o formidável maremoto que, no dia 11 de março, atingiu com inaudita brutalidade o nordeste do Japão e causou o desastre atual de Fukushima, derrubaram as certezas dos defensores da energia atômica civil.

Curiosamente, a indústria nuclear estava vivendo talvez a melhor época da sua história. Num grande número de países estavam previstas dezenas de construções de centrais. E isto essencialmente por duas razões. Primeiro, porque a perspectiva de que o petróleo venha a esgotar-se no final deste século, associada ao crescimento exponencial da procura de energia por parte dos "gigantes emergentes" (China, Índia, Brasil), faziam dela a energia de substituição por excelência [1]. Depois, porque a tomada de consciência coletiva face aos perigos das alterações climáticas causados pelos gases com efeito de estufa, conduzia paradoxalmente à preferência pela energia nuclear julgada “limpa,”por não produzir CO2.

A estes dois recentes argumentos, juntavam-se os pretextos habituais: o da soberania energética e da mínima dependência de países exportadores de hidrocarbonetos; o baixo custo da energia assim produzida; e – ainda que pareça insólito no contexto atual – o da segurança, sob o pretexto de que as 441 centrais nucleares do mundo (mais de metade das quais situadas na Europa ocidental) só registaram, ao longo de meio século, três acidentes graves [2]...

Todos estes argumentos – não totalmente absurdos – foram fulminados perante a excepcional dimensão do desastre de Fukushima. O novo pânico, de alcance mundial, que este cataclismo fez nascer assenta em várias constatações. Em primeiro lugar, e contrariamente ao de Chernobyl – atribuído em parte, por razões ideológicas, ao envelhecimento duma tecnologia soviética vilipendiada – este acidente acontece precisamente no coração de um dos centros hipertecnológicos mais avançado do mundo, num país onde bem se pode imaginar – o Japão foi em 1945, a única nação vítima do inferno militar atômico – que as suas autoridades e os seus técnicos tenham tomado todas as precauções possíveis para evitar o desastre nuclear civil. Portanto, se o Estado mais capaz e mais vigilante não conseguiu impedir a catástrofe, é razoável que os outros países continuem a brincar com o fogo nuclear?

Em segundo lugar, as consequências temporais e espaciais do desastre de Fukushima aterrorizam. Por causa da fortíssima radiação, as áreas que circundam a central ficarão inabitáveis durante milênios. As zonas um pouco mais afastadas, durante séculos. Milhões de pessoas serão definitivamente deslocadas para zonas menos contaminadas. Terão de abandonar para sempre as suas propriedades, as suas explorações agrícolas, industriais ou de pesca. Para além da região-mártir propriamente dita, os efeitos radioativos far-se-ão sentir na saúde de dezenas de milhões de japoneses. E com certeza também na dos vizinhos, coreanos, russos, chineses... Sem excluir outros habitantes do hemisfério norte [3]. O que confirma que um acidente nuclear nunca é local, é sempre planetário.

Em terceiro lugar, Fukushima demonstrou que a questão da chamada “soberania energética” é muito relativa. Porque a produção da energia nuclear supõe uma outra sujeição: a “dependência tecnológica”. Apesar do seu enorme avanço técnico, o próprio Japão viu-se forçado a recorrer a especialistas americanos, franceses, russos e coreanos (além dos especialistas da Agência Internacional de Energia Atômica) para tentar retomar o controle dos reatores acidentados. Além disso, os recursos de urânio do planeta [4] são extremamente limitados. Calcula-se que, ao atual ritmo de exploração, as reservas minerais desse minério se esgotem ao fim de 80 anos... ou seja, ao mesmo tempo que o petróleo...

Por todas estas razões, e muitas mais (a eletricidade nuclear não é mais barata), os defensores da opção nuclear têm agora de admitir que Fukushima modificou radicalmente o enunciado do problema energético. E que daqui para a frente se impõem quatro imperativos: parar a construção de novas centrais; desmantelar as que existem num prazo máximo de trinta anos; impor uma frugalidade extrema no consumo de energia; e tirar pleno partido das energias renováveis. Só assim se poderá talvez salvar o nosso planeta. E a humanidade.

Publicado em Mémoire des Luttes

Tradução de Deolinda Peralta para o Esquerda.net

Notas
[1] Antes do acidente de Fukushima, estimava-se que o número de centrais
nucleares no mundo devia aumentar 60% até 2030. A China, por exemplo, possui atualmente 13 centrais atômicas em atividade (que fornecem apenas 1,8% da electricidade do país); em janeiro, Pequim decidiu construir, entre 2011 e 2015, 34 novas centrais, uma de dois em dois meses...

[2] Three Mile Island, Estados-Unidos, em 1979; Chernobyl, União Soviética, em 1986; e Fukushima, Japão, em 2011.

[3] Partículas radioativas provenientes de Fukushima caíram na Europa ocidental alguns dias após o acidente, e ainda que as autoridades tenham afirmado que "não constituíam nenhum perigo para a saúde", vários especialistas advertiram: se estas partículas ficarem acumuladas sobre legumes de folhas largas como alfaces, o consumo das mesmas pode constituir um risco.

[4] Um reator nuclear não é senão um sistema para aquecer água. Para isso, utiliza-se a fusão do átomo de urânio 235 que, partindo-se através da "desintegração nuclear", produz uma enorme libertação de energia térmica e aquece a água. Esse calor é depois transformado em energia elétrica. Convém saber que 156 toneladas de rocha contêm só uma tonelada de minério de urânio do qual se obtém no final apenas um quilo de urânio puro. Desse quilo só 0,7%, ou seja, 7 gramas, são de U235. Temos então que serão necessárias 156 toneladas de rochas para 7 gramas de combustível! Ler, Eduard Rodríguez Farré e Salvador López Arnal, Casi todo lo que usted desea saber sobre los efectos de la energía nuclear en la salud y en medio ambiente, El Viejo Topo, Barcelone, 2008 ; e Paco Puche "Adios a la energía nuclear", Rebelión (www.rebelion.org), 18 de Abril de 2011.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

A discriminação, no Brasil, está no DNA das elites.

Do Blog do Emir Sader, sociólogo e cientista, mestre em filosofia política e doutor em ciência política pela USP - Universidade de São Paulo.

13/05/2011

A discriminação no Brasil é étnica, social e regional
O processo de ascensão social de massas, inédito no Brasil, volta a promover formas de discriminação. A política – de sucesso comprovado – de cotas nas universidades, a eleição de um operário nordestino para Presidente da República – igualmente de sucesso inquestionável -, a ascensão ao consumo de bens essenciais que sempre lhes foram negados – fenômeno central no Brasil de hoje -, provocaram reações de discriminação que pareciam não existir entre nós.

A cruel brincadeira de repetir um mote das elites – “O Brasil não tem discriminação porque os negros conhecem o seu lugar” – mostra sua verdadeira cara quando essas mesmas elites sentem seus privilégios ameaçados. Setores que nunca se importavam com a desigualdade quando seus filhos tinham preparação sistemática para concorrer em melhores condições às vagas das universidades públicas, passaram a apelar para a igualdade na concorrência, quando os setores relegados secularmente no Brasil passaram a ter cotas para essas vagas.

Professores universitários – incrivelmente, em especial antropólogos, que deveriam ser os primeiros a lutar contra a discriminação racial -, músicos – significativa a presença de músicos baianos, que deveriam ser muito mais sensíveis que os outros à questão negra -, publicaram manifesto contra a política de cotas, em nome da igualdade diante da lei do liberalismo.

A vitória da Dilma, por sua vez, provocou a reação irada e ressentida de vozes, especialmente da elite paulistana, contra os nordestinos, por terem sido os setores do país que pela primeira vez são atendidos em seus direitos básicos. Reascendeu-se o espírito de 1932, aquele que orientou o separatismo paulista na reação contra a ascensão do Getúlio e de suas politicas de democratização econômica e social do Brasil. Um ranço racista, antinordestino, aflorou claramente, dirigidos ao Lula e aos nordestinos, que vivem e constroem o progresso de São Paulo, e aos que sobreviveram à pior miséria nacional no nordeste e hoje constroem uma região melhor para todos.

A discussão sobre o metrô em Higienópolis tem a vem com a apropriação privilegiada dos espaços urbanos pelos mais ricos que, quando podem, fecham ilegalmente ruas, se blindam em condomínios privados com guardas privados. A rejeição de pessoas do bairro – 3500 assinaturas – à estação do metrô expressava o que foi dito por alguns, sentido por todos eles, de impedir que seja facilitado o acesso ao bairro – a que mesmo seus empregados particulares tem que chegar tomando 2 ou 3 ônibus -, com a alegação que chegariam camelôs, drogas (como se o consumo fosse restrito a setores pobres), violência, etc.

Nos três tipos de fenômeno, elemento comum é a discriminação. Étnica, contra os negros, na politica de cotas; contra os nordestinos, nas eleições; na estação do metrô, contra os pobres.

Os três níveis estão entrelaçados historicamente. Fomos o último país a terminar com a escravidão, por termos passado de colônia à monarquia e não à república. Adiou-se o fim da escravidão para o fim do século. No meio do século XIX foi elaborada a Lei de Terras, que legalizou a propriedade – via grilagem, em que em papel forjado é colocado na gaveta e o cocô do grilo faz parecer antigo. Quando terminou finalmente a escravidão, todas as terras estavam ocupadas. Os novos cidadãos “livres” deixaram de ser escravos, mas não foram recompensados nem sequer com pedaços de terra. Os negros livres passaram a se somar automaticamente à legião de pobres no Brasil.

O modelo de desenvolvimento, por sua vez, concentrador de investimentos e de renda, privilegiou o setor centro sul do Brasil, abandonando o nordeste quando se esgotou o ciclo da cana de açúcar. Assim, nordestino, esquematicamente falando, era latifundiário ou era pobre. Esse mesmo modelo privilegiou o consumo de luxo e a exportação como seus mercados fundamentais, especialmente com a ditadura militar e o arrocho salarial.

A discriminação dos negros, dos nordestinos e dos pobres foi assim uma construção histórica no Brasil, vinculada às opções das elites dominantes – em geral brancas, ricas e do centro-sul do pais. A discriminação tem que ser combatida então nas suas três dimensões completamente interligadas: étnicas, regionais e sociais. O fato do voto dos mais pobres (que inclui automaticamente os negros) e dos nordestinos estar na base da eleição e reeleição do Lula e na eleição da Dilma, com os avanços sociais correspondentes, só acirram as reações das elites. Discriminações que tem que ser combatidas com politicas publicas, com mobilizações populares e também com a batalha no plano das idéias.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

#GenteDiferenciada é gente atenta e mobilizada. É o barato da cidadania nos tempos do twitter e do facebook

Veja a cobertura e os posts. Vale a pena.











Direto do http://arnobiorocha.wordpress.com/

#GenteDiferenciada : O novo está nascendo?


A bandinha mandando ver

O movimento #GenteDiferenciada foi uma reação extremamente politizada e bem humorada a uma frase, um ato falho, de uma psicóloga(??), moradora do aristocrático bairro de Higienópolis: “Eu não uso metrô e não usaria. Isso vai acabar com a tradição do bairro. Você já viu o tipo de gente que fica ao redor das estações do metrô? Drogados, mendigos, uma gente diferenciada…”

A frase simbólica representava o repúdio à implantação de uma estação de metrô no bairro, um abaixo-assinado com 3500 assinatura foi entregue ao Governo de São Paulo e aceito como desejo da comunidade de Higienópolis demonstrando todo seu compromisso com a parcela mais rica e privilegiada da cidade. Uma cidade carente de transporte público sonega o direito aos trabalhadores que ali labutam a facilidade de se locomover e chegar no horário e ter uma melhor qualidade de vida. Tudo isto em nome de um grupo que, em regra, não precisam de horários rígidos ou se incomodam de andar com seus ricos carros de luxos ou seus helicópteros.


Criatividade nos trajes de #gentediferenciada

Através do Facebook e Twitter começou um Hashtag viral: #GenteDiferenciada e a convocação de Churrascão desta gente diferenciada em frente ao templo de consumo do bairro, o que parecia apenas uma brincadeira dos que apenas se revoltam desde seus sofás virou um movimento de fato, uma inusitada manifestação seguiu pelo bairro, mostrando uma nova cara, uma nova forma de exercício de cidadania. As caras espantadas nas janelas no começo deram lugar a sorrisos, houve um entendimento que as pessoas ali embaixo não eram contra o bairro, a comunidade.


Nas janelas depois do "susto" apoio e sorrisos

Alguns se excederam via Twitter e Facebook descambando para frases anti-semitas, mas a imensa maioria passou ao largo destas manifestações, inclusive foi de grande utilidade a frase anti-semita do CQC, pois dali se diferenciou os que querem o novo dos escatológicos oportunistas. No ato houve um repúdio generalizado ao CQC com corinho impublicável, mas bem humorado como todos os outros. Até nisto a manifestação foi célebre.


Carrinho Multimídia(novo) e charanga(Antigo) dialogando

O clima nas ruas de Higienópolis era de festa, nos olhávamos e sabíamos que de alguma forma estávamos fazendo história, mexendo com temas caros a uma grande metrópole:

1) Para quem se deve governar;

2) Transporte Público e ocupação urbana;

3) Cidadania e urbanidade;

A Velha Mídia é Velha mesmo
Mais ainda este movimento foi fora de qualquer estrutura: Partidos, Sindicatos, entidades estudantis, mesmo os grupos que se acham “donos” do “cyberativismo” foram pegos de surpresa, entraram com o bonde andando, mas sem poder de definir nada, provando que na rede “ninguém é de ninguém”. foi espontâneo, viral, algo que já ocorreu nas revoluções no Egito, por exemplo. Os números são secundários, a mídia quer dar peso em algo que não pesa, querem desqualificar o novo, o inusitado, agem como o establishment, lembrou-me exatamente o comportamento da TV estatal egípcia que mostrava ruas vazias enquanto a Al jazeera mostrava a revolução em Tahir, exceto o portal Terra Maganize ninguém cobriu ao vivo e captou o sentido do ato.

Dezenas de articulistas da mídia tradicional queimam papel e pestana para desqualificar o inqualificável, não tem como enquadrar na lógica formal de movimento o que é o #GenteDiferenciada, que pode ser apenas uma chuva outonal ou um novo movimento político, que nasce de uma geração que não aceita caciques nem políticos, nem midiáticos, tocados por coisas concretas, que explodem sempre numa sociedade de classes e polarizada.

São sintomáticas que este novo momento decai velhas estrelas, basta ver a reacionária entrevista do Caetano Veloso, é emblemático, o velho, não de idade, mas de espírito não captar o que se passa na rede, como bem definiu a Vange Leonel ( @vleonel ): “A rede é passagem, é fluída”. Esta luta encarniçada da velha mídia, velhas formas de artes baseadas no “mando” dará lugar uma visão mais anárquica, mas muito mais crítica e radical à sociedade de consumo.

As bases de algo novo estão surgindo no mundo, na periferia, nas lan houses, na nova forma cifrada de se comunicar, de pensar a vida de forma mais simples e descomplicada. O #GenteDiferenciada é a representação deste novo, quem foi e viu sabe do que falo. Grande passo é ir aos bairros da periferia e misturar tudo num novo movimento


Felicidade e confraternização das novas gerações

#GenteDiferenciada: quem será?
O meu querido amigo @biosbug ( São Paulo – O Gigante se mo ) de #TeiaLivre simplesmente escreveu de forma maravilhosa tudo que tinha a falar sobre o que ele e eu sentimos ao participarmos do “Churrascão do #GenteDiferenciada”. Assim vou postar apenas as fotos em complemento ao que ele fez magnificamente fez no seu post.

Nunca antes na historia este bairro aristocrático presenciou uma manifestação tão colorida e politizada, lembrando as inusitadas manifestações da Praça de Tahir que levou à queda de Mubarak. Inédito e espontâneo, convocado quase como brincadeira via Facebook/Twitter, as fotos revelam a alegria e a nova cidadania em movimento.

Na minha chegada : A polícia protege a Sacrossanta Propriedade Privada

A polícia protege a Sacrossanta Propriedade Privada


NY e Paris é Chique né?


É nós na fita !!!


A Prova do Churras - Diliciaaaaa


@mariafro e @urbeslz conversam e uma senhora do bairro que estava feliz com a manifestação

ECAD nele!!! Camelô que Horror!!

ECAD nele!!! Camelô que Horror!!

Carrinho Multimídia que coisa doida..somos todos baianos!!!

Carro Multimidia


Sucesso!!

#gentediferenciada e com grife na camiseta e na cabeça!!!

#gentediferenciada e com grife na camiseta e na cabeça!!!

Também fui de Timão, #gentediferenciada é aqui!!!

Também fui de Timão, #gentediferenciada é aqui!!!


A grande Renata Falzoni (@rfalzoni ) , chamou o povo na rádio @espnestadao e veio mesmo


Amigas queridas presentes: @na_faixa , @urbeslz e @vleonel

domingo, 15 de maio de 2011

Chegou a hora dessa #gentediferenciada mostrar o seu valor

domingo, 15 de maio de 2011

Crônica de um churrascão diferenciado
Por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania:

Puta que pariu / é a elite/ mais tosca do Brasil!
O verso acima era declamado por mais de mil pessoas que se espremiam diante do shopping no meio da tarde de um sábado nublado – e esfriando – depois do sol que dera palhinha por volta das 12 horas, quando cheguei ao local do Churrascão da Gente Diferenciada e não encontrei ninguém que me parecesse que participaria de algo assim tão “popular”.

No boulevard que precede os corredores tomados por brilhos, luzes, cheiros e sons que embriagam o endinheirado consumidor do asséptico e verdejante bairro paulistano de Higienópolis para depois depená-lo, senhores maduros, gordos e engravatados riem em duas, três mesas, fazendo-me pensar por que estariam vestidos assim num sábado. Outras mesas eram ocupadas por casais, senhoras e até crianças e adolescentes, mas os maduros predominavam.

Olho para um lado, para o outro, e nada. Ninguém diferenciado. Eram todos iguais na cor da pele, nos perfumes fortes, na aparência bem-nutrida, enfim. Não posso negar que, por alguns momentos, senti-me em Paris. Lembrei-me de um café em Saint Germains des Pres…

Pensei na internet. Deve ter informação. Só que não uso esses telefones que, além de tudo, fazem até chamadas e nos quais se pode navegar na rede. Mas estava em um shopping e todo shopping tem lan-houses… Certo? Errado. Nesse não tem. E por que teria, ora, se todos, ali, andam pelos corredores do shopping e nas ruas olhando seus aparelhinhos mágicos?

Contudo, estava na República de Higienópolis e, ali, até os balcões de informações são… diferenciados – ou seriam iguais aos dos países que aquele bairro-estado emula? Enfim, sei que a garota me disse que NÃO havia lan-houses no shopping ou naquela região (?!), mas que a uns MIL metros dali, na rua Maria Antonia, encontraria. E imprimiu o mapa para mim (!).

É um bairro mais igual, entendem? É o contrário do conceito de “diferenciado”.

Fui até lá e, assim que entro no Twitter, o Luis Nassif me manda uma mensagem dizendo que estava ali “com as menininhas” e doido pra comer churrasco, mas não tinha nada. Deixo-lhe uma mensagem pedindo que me ligue. Ele liga e diz que tem compromisso, lamentando não ter encontrado o churrasco.

Penso que está na hora de voltar. Ficarei até duas e meia e, se não aparecer ninguém, vou ao Sujinho comer bisteca de boi e tomar uma cachacinha Seleta, que as mais famosas não cabem no meu bolso. Saio a passos largos, já suando e maldizendo o blazer que vesti no começo da manhã, quando fazia frio e saí de casa para ir ao Churrascão.

Alvíssaras!, tem gente lá na frente falando com a imprensa. Estão ao lado de um carro da RedeTV! Aproximo-me e algumas pessoas vêm falar comigo. Alguns membros do Movimento dos Sem Mídia, leitores que conheço e várias pessoas simpáticas que não conhecia. A maioria, porém, não conheço. Todos ainda muito tímidos. Eu, inclusive.

Fiquei pensando, naquele momento: como faremos isso aqui? Esse pessoal tão… civilizado e fleumático vai se “horrorizar”.

Ando entre os grupos de pessoas conversando. Vai chegando cada vez mais gente. Uma rede de tevê me pára e pede para dar entrevista, como fazia sem parar. Não guardei o nome porque o afluxo crescente de pessoas começou a surpreender. Daqui a pouco chegam a Band e o SBT. Já havia quase umas duzentas pessoas, no local.

Aí a polícia apareceu, bem como o CET. Chegam manifestantes, chega polícia, chega imprensa… E vão chegando.

Mas os grupos de pessoas só dão entrevista e mais entrevista. Ouço um engraçadinho que não quis se misturar dizer que tinha mais jornalista que manifestante. O sangue sobe. Vou ao centro dos manifestantes e grito: Quem quer metrô, aqui?! Aquela massa crescente acorda e brada: Nós! E ficaram esperando eu dizer mais.

As câmeras se voltam e começo a discursar, com as mãos ao lado da boca numa tentativa de amplificar a voz. Surpreendentemente, ecoou forte. A repórter enfia o microfone na cara e começa a fazer perguntas que respondo não para ela, mas para as pessoas, que assoviam, gritam frases bem-humoradas.

Paro de falar e a manifestação amaina. Em alguns segundos, porém, mais alguém começa a falar. Daí chega o humorista Celso Mim com um capacete de obras “reprimindo” a manifestação como se fosse um funcionário do metrô, dando bronca nos manifestantes. Alguns parecem acreditar, de início.

Quando os discursos e palavras de ordem já proliferavam, ouve-se a batucada lá longe, mas avançando pela avenida Higienópolis. Parecia que jogavam confete. Sambavam, cantavam. Um dos cânticos era mais ou menos assim, se me lembro:

Se esta rua fosse minha / Eu mandava ladrilhar / Com Pedrinhas de Brilhante / Para o meu metrô passar

Alguém aparece com churrasco. Agora está cheio de jovens bem-humorados. Maduros, idosos e até crianças diferenciados. Somos muitos. A avenida Higienópolis está tomada. Não passam mais carros. Das imensas sacadas dos prédios, moradores do bairro, imóveis e aparentemente em silêncio, observam a tudo.

Passo a me esgueirar entre a multidão. Encontro gente que conheço e que não conheço e me conhece e eis que, de repente, vejo, diante de mim, dois colunistas da Folha de São Paulo.

São Fernando de Barros e Silva e Sergio Malbergier, aquele que andou escrevendo sobre o direito dos ricos de não quererem metrô na porta deles. Abro-lhes um sorriso como se fossem velhos amigos e, para minha surpresa, percebo que me reconhecem, apesar de jamais termos nos visto pessoalmente.

– Eu conheeeço você – digo a Barros e Silva, em tom jocoso –, e você também – estendo o cumprimento a Malbergier.

Digo que li o texto de Malbergier e que estava “um primor”. Ele sorri, simpático, como se não ligasse para a ironia. Barros e Silva, porém, fecha a cara, aproxima-se e diz:

– Olha, eu respeito você, Eduardo, mas as suas posições são primárias…

Respondo:

– Eu acredito que você pensa assim, mas não são as minhas posições que são primárias, são as suas que são muito avançadas, próprias para Londres, Paris, Amsterdam…

Barros e Silva franze ainda mais o cenho, percebo os dentes trincando, dá-me as costas, empina o queixo e diz, sem se voltar: “Está vendo como você é primário?”. E sai andando.

Comento com Malbergier: “Ele está zangado, né?”. E ele, sorridente: “Está zangado”.

Bato no braço dele, despedindo-me, e dizendo que acho positivo que tenham ido até lá. E caio no meio da galera.

Dali, a manifestação começa a se mover com batucadas e jovens à frente. Avançam em direção à avenida Angélica. Dobram à direita e começam a subi-la. Ocupam as duas pistas. Olho para a avenida e, diante de nós, está vazia de veículos até onde a vista enxerga. Nos prédios em volta as pessoas se debruçam nas janelas e sacadas. Policiais e agentes da CET parecem nervosos…

Peço ao comandante da operação que me diga o número estimado de manifestantes. Ele tasca 600. Digo que ele só pode estar brincando. Havia mais de mil pessoas fácil, ali. Saio meio zangado, batendo o pé, e nem agradeço. Depois reflito que o oficial não teve culpa. Estava cumprindo ordens.

Enfim, foi mágico para este coração cinqüentão de um homem que cresceu em um país em que fazer um ato daquele significava ser espancado e até preso e torturado, quando não assassinado. E o mais lindo foi ver os jovens exigindo direitos, pregando igualdade com calma, bom humor, pacificamente.

Pena que a grande imprensa não contará direito o que aconteceu em São Paulo nesta tarde fria de maio, mas a internet contará a verdade. Fotos, vídeos e relatos, não faltarão. Não carecia, portanto, que me prendesse a isso. Queria passar ao meu leitor as “primárias” impressões deste “primário” blogueiro sobre essa incrível festa da democracia.

sábado, 14 de maio de 2011

Dilma contraria interesses e poder econômico pode ir para cima do PT em 2014

via cartamaior.com.br



Estrategistas de Dilma querem neutralizar interesses contrariados
Com a presidenta disposta a enfrentar interesses empresariais, estrategistas do governo apostam que o poder econômico despejará milhões em adversários do PT em 2014, se não for impedido por uma reforma política que só permita dinheiro público em campanhas eleitorais. Problema é obter consenso entre os dois maiores partidos do país e do governo: o PT de Dilma e o PMDB do vice-presidente, Michel Temer.
André Barrocal

BRASÍLIA – A presidenta Dilma Rousseff está disposta a tirar proveito do conforto político que tem para enfrentar interesses empresariais que considera contrários ao interesse do país. Os adversários do PT encolheram e têm menos condições de fazer uma dobradinha eficaz com empresários descontentes para tentar jogar Dilma contra a opinião pública. Os estrategistas da presidenta apostam que os confrontados reagirão com a arma que lhes resta: dinheiro. O troco viria com maciço financiamento de rivais do PT na eleição de 2014. Para se proteger da revanche, os estrategistas querem proibir patrocínio privado de campanhas.

O uso exclusivo de verba pública nas eleições depende de uma reforma política que os estrategistas de Dilma sonham ver votada no fim do ano, mesmo que custe uma penosa negociação com aliados. Só num começo de mandato, sem o acúmulo de desgastes do Palácio do Planalto com apoiadores, e diante de uma oposição fragilizada, é que seria possível votar “a mãe de todas as reformas”.

A relação que o governo tenta estabelecer com o Congresso, até agora, contribui para evitar fissuras com aliados. Na visão do Planalto, o Legislativo deve ser palco de grandes batalhas estruturais, não uma Casa da qual o governo dependa todos os dias, em votações cotidianas. É o caso da reforma tributária, que deve ser começar a ser discutida ainda no primeiro semestre. E da reforma política, no segundo semestre.

O plano de tocar a reforma política e defender a proposta de acabar com financiamento privado de campanhas esbarra, no entanto, num conflito que parece difícil de se resolver e que sugere, de fato, um alto custo. As duas maiores legendas do Brasil e do governo, PT e PMDB, que dividem o Planalto – Dilma pertence à primeira e o vice-presidente, Michel Temer, à segunda – têm visões divergentes sobre o tema.

Para o PT, as mudanças devem fortalecer os partidos e reduzir a influência do poder econômico. Já o PMDB defende valorizar mais candidaturas do que agremiações e acha complicado convencer a sociedade a aceitar dinheiro público em campanhas. Daí que a presidenta, mesmo simpática à reforma, e a despeito dos planos que a cercam, pretende assistir ao debate de longe. “Ela é a favor da reforma política mas não vai entrar de sola, é um assunto para o Congresso resolver. Há muita divergência na base aliada”, diz um ministro.

Reforma política: prioridade petista
A intenção de partir com tudo para levar a reforma política adiante este ano foi explicitada pelo PT em reunião do Diretório Nacional dias 29 e 30 de abril. O encontro produziu dois documentos. Uma resolução sobre prioridades para 2011, que coloca a votação da reforma no topo, e um apenas sobre a reforma, com as teses defendidas. “O financiamento privado superpotencializa a influência do grande capital na política e favorece a corrupção”, afirma o documento sobre a reforma.

Nas resoluções, a cúpula petista incentiva dirigentes, bancadas e militantes a ocupar espaço na sociedade e na mídia para pregar a reforma política e buscar aliados, como sindicatos e outros partidos. “Estamos no momento propício para fazer essa reforma, a sociedade precisa de um sistema político melhor”, diz o líder do PT na Câmara, deputado Paulo Teixeira (SP).

O principal cabo eleitoral petista pela reforma política será o ex-presidente Lula. Desde o fim de 2010, ainda no Planalto, Lula pensa em montar uma frente de partidos de esquerda (PT, PSB, PCdoB e PDT) em prol da reforma. Antes, sentia-se engessado. O assunto tem potencial para afetar a relação de um presidente da República com seus apoiadores, já que os partidos têm opiniões variadas e divergentes.

É a dificuldade enfrentada por Dilma Rousseff hoje e que a leva a evitar envolvimento direto. O vice dela é do PMDB. O presidente do Senado, José Sarney, é do PMDB, maior bancada da Casa. Segundo um aliado de Michel Temer, a maior parte da legenda discorda do financiamento público. Acha que é muito difícil convencer a sociedade de que vale à pena gastar dinheiro público assim. Que não impede caixa dois. E que só favorece o PT.

Pesquisas indicam que o PT é o partido predileto dos eleitores que declaram ter alguma preferência. Parece o único capaz de sobreviver à base de voto de legenda, e o financiamento público estimula, de alguma forma, o voto de legenda. Isso porque é uma proposta que tem uma irmã gêmea. O eleitor votaria, para deputado ou vereador, numa lista que os partidos apresentariam na campanha, em vez de votar num candidato específico. O oposto do que o PMDB defende, que é valorizar candidatos.

Temer, o guia peemedebista
A posição peemdebista no debate da reforma política tem sido manifestada por Michel Temer desde que o tema começou a ser discutido pelo novo governo e o novo Congresso. Em fevereiro, Temer foi ao Senado, discursar sobre o tema, quando os senadores decidiram instalar comissão especial para tratar da reforma. Em março, publicou artigo na imprensa a respeito. Nas duas ocasiões, defendeu que deputados (federais e estaduais) e vereadores sejam eleitos conforme os votos que receberam individualmente, sem levar em conta alianças que suas siglas tenham feito.

Para Temer, a mudança corrigiria distorção que ele acredita existir no sistema eleitoral brasileiro. Presidente, governadores, prefeitos e senadores são eleitos graças a votações individuais. Deputados e vereadores, não. Na avaliação do vice, a nova regra faria uma espécie de depuração no Congresso, ao diminuir o número de partidos representados lá dentro - hoje, são 22 legendas. E, com tal redução, os partidos sobreviventes também se fortaleceriam.

Essa é uma proposta que, segundo um aliado de Temer, o PMDB faz questão que esteja na reforma política. Mas que mexe em algo que, em seus últimos documentos sobre o tema, o PT chama de "virtude do atual sistema que precisa ser preservada", que é a eleição proporcional para casas legislativas.

Com visões antagônicas no coração da base de apoio ao governo, há condições de aprovar alguma reforma política e que ela contemple financiamento público de campanhas? Para os estrategistas de Dilma, que enxergam uma reeleição acirrada contra um poder econômico contrariado, sim. Custaria cargos e emendas parlamentares. Mas uma reforma estruturante como essa valeria o preço.