domingo, 10 de abril de 2011

Energia nuclear. Ainda há quem a defenda. (com trilha do Kraftwerk - Radioactivity no final)



Via cartamaior.com.br

Defensores da energia nuclear esqueceram Chernobil
Formadores de opinião que desprezam os riscos da radiação estão ignorando os mortos de acidentes passados. Fukushima não é Chernobil, mas é potencialmente pior. Uma catástrofe de múltiplos reatores acontecendo a 240 quilômetros de uma metrópole de 30 milhões de habitantes. Se acontecesse em Sellafield (uma das principais usinas nucleares inglesas, a 400 quilômetros de Londres), haveria pânico nas principais cidades britânicas. Ainda não sabemos o resultado final mas ouvir de especialistas que a radioatividade não é nada sério, ou que esse acidente prova que precisamos de energia nuclear, não é nada menos de trágico. O artigo é de John Vidal.
John Vidal - The Guardian

Todos os dias mais problemas surgem na crise nuclear japonesa e fica claro que a indústria e os governos estão nos contando muito pouco; não têm ideia de quanto tempo irá levar retomar o controle; ou qual o risco real da contaminação cumulativa.

As autoridades tentam nos acalmar dizendo que não há perigo imediato e uns poucos ambientalistas obcecados com as emissões de carbono repetem o mantra da indústria de que apenas uns poucos morreram em Chernobil – o pior acidente nuclear da história. Aqueles que não concordam são desqualificados e colocados no mesmo grupo dos que negam as mudanças climáticas.

Eu prefiro as palavras de Alexey Yablokov, membro da academia russa de ciências, e conselheiro do presidente Gorbachev à época de Chernobil: “quando você ouvir 'não há perigo imediato' [de radiação nuclear] então é hora de correr para o mais longe e o mais rápido que você puder”.

Cinco anos atrás eu visitei áreas ainda altamente contaminadas da Ucrânia e da fronteira da Bielorrússia, onde a maior parte da radioatividade de Chernobil se concentrou. Eu desafio o chefe cientista John Beddington e ambientalistas como George Monbiot ou qualquer um dos que agora desqualificam os riscos da radiação a conversar com médicos, cientistas, mães, crianças e moradores dos vilarejos onde as consequências do acidente nuclear se concentraram.

É assustador. Fomos de hospital em hospital e de uma vila contaminada para outra. Encontramos bebês deformados e com mutações genéticas; crianças doentes; adolescentes com crescimento anormal e corpo deformado; fetos sem pernas ou dedos e pessoas dizendo que todos os membros de suas famílias estavam doentes.

Isso foi 20 anos depois do acidente mas nós ficamos sabendo de muitas pessoas com tipos raros de câncer nos ossos. Um médica nos disse, chorando, que em alguns lugares uma em três gestações tem má-formação e que ela estava sobrecarregada de pessoas com desordens nos sistemas imunológicos e endócrinos. Outros disseram que eles ainda detectavam césio e estrôncio no leite de mães vivendo em áreas distantes das mais afetadas, e significativa radiação ainda estava presente na cadeia alimentar. Pessoas das vilas confirmam que o “colar de Chernobil” - câncer de tireoide – é tão comum quanto chama atenção; e muitos mostram sinais de envelhecimento acelerado.

Médicos e cientistas que têm lidado diretamente com a catástrofe dizem que o número de vítimas oficialmente reconhecidos pela Agência Internacional de Energia Atômica da ONU – 50 mortos diretos e talvez 4 mil que vieram a morrer depois – é um insulto e de um simplismo grosseiro. O Centro Científico de Radiação da Ucrânia, que estima que a mortalidade infantil aumentou entre 20 e 30% depois do acidente, diz que seus dados não são reconhecidos pela ONU pois não foram publicados em um grande jornal científico.

Konstantin Tatuyan, um dos “liquidadores” que ajudou a limpar a usina, nos disse que praticamente todos os seus colegas morreram ou desenvolveram algum câncer, de um tipo ou outro, mas que nunca ninguém entrou em contato com ele para evidências.

Existe um candente ressentimento com a forma com que a ONU, a indústria e formadores de opinião mal informados tem desconsiderado os efeitos da catástrofe. Enquanto há milhares de estudos na Europa oriental sobre os efeitos da radiação de Chernobil na saúde, apenas uns poucos são aceitos pela ONU, e há apenas uns poucos estudos internacionais tentando agrupar números totais. Eles vão do estudo do Comitês Científicos dos Efeitos da Radiação Atômica da ONU (57 mortes diretas e 4 mil casos de câncer) ao dos Físicos Internacionais para a Prevenção da Guerra Nuclear, que estima que mais de 10 mil pessoas foram afetadas por câncer de tireoide apenas e que outros 50 mil casos podem ser esperados.

Subindo a escala, um estudo de 2006 de parlamentares europeus do Partido Verde sugerem até 60 mil mortes: o Greenpeace pegou evidências de 52 cientistas e estimou as mortes e as doenças em 93 mil cânceres terminais até agora e talvez outros 140 mil mais no futuro. Usando outros números, a Academia Russa de Ciências Médicas declarou em 2006 que 212 mil pessoas haviam morrido em consequência de Chernobil.

No fim de 2006, Yablokov e dois colegas, calculando pela queda global em nascimentos e aumento de cânceres verificado depois do acidente, estimaram em um estudo publicado nos anais da Academia de Ciências de Nova York que 985 mil pessoas haviam morrido até agora e que o ambiente havia sido devastado. Os resultados foram recebidos com quase completo silêncio pela Organização Mundial da Saúde e pela indústria.

Em quem podemos confiar quando as estimativas mudam tão drasticamente? Devemos acreditar nas evidências empíricas dos médicos; ou nos governos e membros da indústria apoiados por campanhas de relações públicas? Tão politico se tornou o campo da energia nuclear que agora você pode pegar os números que quiser, desacreditar os oponentes, e ignorar qualquer coisa que você não goste. A verdade é que talvez nunca saibamos a verdade sobre Chernobil pois os dados foram perdidos, milhares de pessoas de 24 países que ajudaram na limpeza do local se dispersaram através da gigante ex-União Soviética, e muitos morreram.

Fukushima não é Chernobil, mas é potencialmente pior. Uma catástrofe de múltiplos reatores acontecendo a 240 quilômetros de uma metrópole de 30 milhões de habitantes. Se acontecesse em Sellafield (nota do tradutor - uma das principais usinas nucleares inglesas, a 400 quilômetros a noroeste de Londres), haveria pânico nas principais cidades britânicas. Ainda não sabemos o resultado final mas ouvir de especialistas que a radioatividade não é nada sério, ou que esse acidente prova que precisamos de energia nuclear, não é nada menos de trágico.

Tradução Wilson Sobrinho

Vídeo contribuição de @detonart (Valeu, André!)

Pode jogar com o planeta que ele se vira. Quem não se vira é a humanidade.



Jogando com o planeta
Especialistas nas indústrias nuclear e financeira nos garantiam que as novas tecnologias praticamente eliminaram os riscos de catástrofes. Eventos mostraram que isso não era verdade: não apenas os riscos existiam como suas consequências eram tão grandes que elas facilmente superaram os supostos benefícios dos sistemas que os líderes dessas indústrias promoviam. Para o planeta há mais um risco, que como os outros dois, é quase uma certeza: aquecimento global. Se houvessem outros planetas para os quais pudéssemos nos mudar, alguém poderia dizer que o risco vale a pena. Mas eles não existem. O artigo é de Joseph Stiglitz.
Joseph Stiglitz - The Guardian

As consequências do terremoto japonês – especialmente a crise em andamento na usina nuclear de Fukushima – soam assustadoras para os observadores da crise financeira dos EUA que gerou a Grande Recessão. Ambos os eventos fornecem inescapáveis lições sobre riscos e sobre quão mal mercados e sociedade podem gerenciá-los.

Claro, por um lado, não há comparação entre a tragédia do terremoto – que deixou mais de 25 mil mortos ou desaparecidos – e a crise financeira, à qual não há como atribuir tal sofrimento físico agudo. Mas quando se trata do derretimento em Fukushima, há um tema em comum nos dois eventos.

Especialistas nas indústrias nuclear e financeira nos garantiam que as novas tecnologias praticamente eliminaram os riscos de catástrofes. Eventos mostraram que isso não era verdade: não apenas os riscos existiam como suas consequências eram tão grandes que elas facilmente superaram os supostos benefícios dos sistemas que os líderes dessas indústrias promoviam.

Antes da Grande Recessão, os gurus da economia dos EUA – do chefe do Federal Reserve aos titãs do setor financeiro – alardeavam que havíamos aprendido a dominar os riscos. Instrumentos financeiros “inovadores” como derivativos e credit default swaps permitiam a distribuição dos riscos através da economia. Sabemos agora que eles não apenas enganaram a sociedade, mas até a eles mesmos.

Acabou que esses magos das finanças não entendiam de riscos intrínsecos, o que dizer então dos perigos de distribuição de probabilidades de fat-tail – um termo estatístico para eventos raros com consequências enormes, que por vezes são chamados de “cisnes negros”. Eventos que se espera que aconteçam uma vez a cada século – ou uma vez durante toda a existência do universo – parecem acontecer a cada 10 anos. Pior, não apenas a frequência desses eventos foi amplamente subestimada, também o foram os estragos astronômicos que poderiam causar – algo como os derretimentos que seguem causando problemas à indústria nuclear.

Pesquisas em economia e psicologia nos ajudam a compreender por que da nossa incompetência em gerenciar esses riscos. Temos uma pequena base empírica para julgar eventos raros, portanto é difícil de se fazer boas estimativas. Sob tais circunstâncias, mais que apenas desejo pode entrar na equação: há poucos incentivos para pensar. Pelo contrário, quando os outros arcam com os custos dos erros, os incentivos favorecem a auto-ilusão. Um sistema que socializa as perdas e privatiza os ganhos está condenado a gerenciar mal os riscos.

Todo o setor financeiro estava tomado de problemas externos. Agências de classificação de risco tinham incentivos para fazer boas avaliações a títulos de alto risco produzidos pelos bancos de investimentos que as estavam pagando. Os criadores das hipotecas não sofreram as consequências de suas irresponsabilidades, e mesmo os que se envolveram em empréstimos predatórios ou criaram e venderam títulos fadados a perder o fizeram de maneira a protegê-los de responsabilidades civis e criminais.

Isso nos leva à próxima questão: existem outros “cisnes negros” esperando para acontecer? Infelizmente, é bem possível que alguns dos grandes riscos que enfrentamos hoje não sejam nem mesmo raros eventos. A boa notícia é que tais riscos podem ser controlados com baixo ou mesmo sem custo algum. A má notícia é que ações nesse sentido enfrentam uma forte oposição política – há pessoas que lucram com o estado das coisas.

Nós vimos dois grandes riscos nos anos recentes, mas pouco foi feito para controlá-los. Segundo algumas versões, a forma como a crise foi gerenciada pode ter aumentado o risco de um futuro desastre financeiro.

Bancos grandes-demais-para-falir, e os mercados dos quais eles participam, agora podem supor que serão resgatados caso estejam com problemas.

Como resultado dessa falência moral, esses bancos puderam negociar empréstimos em termos favoráveis, dando a eles uma vantagem competitiva baseada não no desempenho superior, mas na força política. Enquanto um pouco dos riscos excessivos diminuíram, o empréstimo predatório e as negociações obscuras e desregulamentadas e os derivativos negociados “por baixo do balcão” continuam. O incentivo às estruturas que encorajam a tomada de riscos continua sem mudanças.

Do mesmo modo, enquanto a Alemanha fechava seus reatores nucleares mais velhos, nos EUA e em outros lugares, mesmo as usinas com o desenho idêntico das de Fukushima continuam a operar. A existência da indústria nuclear depende de subsídios públicos escondidos – custos carregados pela sociedade no caso de um desastre nuclear, assim como os custos do ainda não resolvido lixo nuclear. Tanto para o capitalismo sem restrições!

Para o planeta há mais um risco, que como os outros dois, é quase uma certeza: aquecimento global e mudança climática. Se houvessem outros planetas para os quais pudéssemos nos mudar a um custo baixo no evento previso por cientistas com quase certeza, alguém poderia dizer que é um risco que vale a pena. Mas eles não existem, portanto não vale a pena.

Os custos de reduzir as emissões são pálidos em comparação aos possíveis riscos que o mundo enfrenta. E isso é verdade mesmo se desconsideramos a opção nuclear (cujos custos sempre foram subestimados). Para ter certeza, empresas de petróleo e carvão iriam sofrer, e países poluentes – como os EUA – iriam obviamente pagar um preço maior do que aqueles com um estilo de vida menos extravagante.

No fim das contas, aqueles que apostam nos cassinos de Las Vegas perdem mais do que ganham. Como sociedade, estamos jogando – com os grandes bancos, com as grandes usinas nucleares, com o planeta. Como em Las Vegas, uns poucos sortudos – os banqueiros que colocaram nossa economia em risco e os donos das empresas de energia que colocam o nosso planeta em risco – podem se dar bem. Mas em média e quase com toda certeza, nós, como sociedade, assim como todos os apostadores, iremos perder.

Essa, infelizmente, é a lição do desastre do Japão que iremos continuar a ignorar.

(*) Economista, professor da Universidade de Columbia e prêmio Nobel de economia de 2001.

Tradução Wilson Sobrinho

Crise de credibilidade no Japão



Crise nuclear japonesa, acreditar em quê?
A maior crise existente no Japão hoje é a crise de confiança. Já não é possível acreditar em nenhum comunicado que faz a Tóquio Eletricidade (Tepco), nem no que diz o governo japonês. Não há como acreditar em nada do que o governo japonês fala. Não se sabe com que critério científico o governo determina o perímetro de 30 km de evacuação. Mas não resta dúvida de que esse perímetro não é aumentado pois isso representará milhares de milhões de ienes de indenizações. O artigo é de Tomi Mori.
Tomi Mori (*) - Esquerda.net

Entrando na quarta semana após o início da tragédia, já que ela ainda está longe de terminar, temos alguns dados já relativamente estabilizados. As mortes oficiais somam 11.620, os desaparecidos 16.444 (não há muita possibilidade de que sejam encontrados vivos depois de tantos dias), 2.877 feridos e 191.625 construções destruídas ou danificadas. Esses números podem ser considerados como a primeira parte da tragédia. A outra parte diz respeito às casas, plantações e vidas desorganizadas pela tragédia nuclear, que continua sem que possamos dizer em que estágio da crise nos encontramos. Estima-se que serão necessários 300 bilhões de dólares para reparar os estragos causados. Estamos no início, no meio ou próximos do final da crise?

Falta de credibilidade

A maior crise existente no Japão hoje é a crise de confiança. Essa crise fenomenal de confiança, no mais amplo sentido da palavra, deriva da atitude das autoridades envolvidas na crise nuclear, ou seja, a Tóquio Eletricidade (Tepco) e o governo do primeiro-ministro Naoto Kan.

A Tóquio Electricidade, operadora da central nuclear Fukushima 1, desde que começou a tragédia, tem agido de tal maneira que já não é possível acreditar em nenhum comunicado que faz. O próprio primeiro-ministro japonês, no início da crise, foi ao escritório da empresa, em Tóquio, para reclamar da maneira como havia sido comunicado. Foi o último a saber, já que a empresa havia se manifestado na imprensa primeiro. Os primeiros vazamentos, que a operadora alegou serem "inofensivos", acarretaram entre outras coisas uma situação na qual os moradores próximos à unidade não mais poderão voltar às suas casas. Vários trabalhadores foram contaminados pela radioatividade, ocasionada pela falta de segurança no trabalho, fruto de informações erradas ou, quem sabe, literalmente mentirosas.

Desde que se iniciou a tragédia nuclear, a operadora fornece dados das medições de radioatividade, mas ninguém é capaz de dizer quais são os critérios utilizados. Se esses critérios são adequados, se os equipamentos utilizados são apropriados, ninguém está em condições de julgar. Mesmo com toda a artimanha utilizada para não agravar o que já era grave, as ações da empresa despencaram. E só não viraram pó, como se diz no jargão financeiro, porque continuam a jogar às escondidas, sem dizer claramente o que deveria ser dito numa situação tão grave como é a atual. Não restam dúvidas que, em primeiro lugar, vêm as motivações económicas e só depois as sociais, como a segurança e a vida das pessoas. As semanas estão a passar, mas não há nenhuma informação concreta de como tudo isso irá terminar.

Durante a semana, foi anunciada a desativação de quatro reactores. Em qualquer situação, é um trabalho que vai levar algumas décadas. Era o óbvio, depois que deitaram água salgada, na tentativa desesperada de refrigerar os reatores. Mas ao invés de diminuir as dúvidas, o que temos à nossa frente é uma quantidade ainda maior de questões não respondidas. Quanto tempo irá levar para que a situação esteja sob controle? A operadora tem como impedir uma fuga que coloque em risco a vida das pessoas? Agora que entramos na Primavera e a temperatura aumenta, como substituir a água do mar? O exército vai deitar sorvete em cima dos reatores com helicópteros?

Neste momento, nas proximidades de Fukushima 1, a temperatura ainda é baixa, provavelmente oscilando até aos 5 graus. Mas, o que será feito quando a temperatura ambiente atingir mais de 30 graus? O governo aventa a possibilidade de jogar resina, mas o que isso significa?

Não há como acreditar em nada do que o governo japonês fala. Não se sabe com que critério científico o governo determina o perímetro de 30 km de evacuação. Mas não resta dúvida de que esse perímetro não é aumentado pois isso representará milhares de milhões de ienes de indenizações. Quanto maior o perímetro, maior a indenização a ser paga e o governo, claramente, faz essas contas, mesmo que isso signifique o risco de milhares de pessoas. O governo, como qualquer governo, tem de falar alguma coisa, mas é incapaz de encontrar uma solução rápida que possa evitar um tragédia de grandes proporções. Na inexistência de explicações confiáveis, sou forçado a especular e tudo indica que a situação hoje é pior e mais dramática do que no dia 11 de março, quando houve o terremoto.

Falta de confiança afeta economia

A visita do presidente Sarkozy ao Japão corresponde ao temor existente, em todo o mundo, de que a crise japonesa possa causar problemas ainda maiores num mundo que já está bastante complicado. Os otimistas diziam que o mundo estava saindo da crise de 2008. Outros mais críticos, diziam que estávamos a caminho, não da recessão mas, sim, da depressão. Independente de estar a favor desta ou daquela opinião, a atual crise japonesa, sem sombra de dúvidas, só faz piorar a situação mundial. A dependência da energia nuclear de alguns países é gritante, basta ver a França de Sarkozy. A França, que sonhava vender centrais nucleares até para os marcianos, se fosse possível, viu o seu projecto despedaçar-se. E, mais do que isso, pode ocorrer um indesejável e poderoso movimento anti-nuclear, coisa que o presidente francês pretende evitar, antecipando-se aos acontecimentos e tentando se transformar no paladino da segurança nuclear, como se isso fosse possível...

A falta de um posicionamento claro por parte do governo tem acarretado uma paralisia em todas as áreas da atividade social. Ainda é cedo para se fornecer números, mas além de várias empresas já terem sido afetadas, com falta de peças e componentes, ainda estamos apenas no início de problemas maiores na economia japonesa. No próximo verão, já está claro que a falta de energia irá causar graves problemas. O maior deles será a falta de energia em Tóquio, coração da economia japonesa. Como resolver essa questão?

Este ano, os japoneses poderão exercer amplamente a sua criatividade, mas é pouco provável que isso impeça que marchemos para uma situação recessiva. Setores da burguesia imperialista japonesa acreditam que na tragédia surge a oportunidade de auferir grandes lucros. Tem algum sentido, já que as pessoas terão de comprar frigoríficos, televisões,camas, construir casas, etc... Mas não se pode dizer que isso vá revitalizar a economia japonesa. Em função da crise nuclear, do seu prolongamento e desdobramentos, a palavra que sintetiza a atual situação japonesa é "volátil". Qualquer que seja a próxima tragédia, ela já não será uma surpresa.

(*) Correspondente em Tóquio do Esquerda.net

Bolsonaro e a sua troupe "gente boa"

[http://mundocaosa.blogspot.com]

Manifestação Pró Bolsonaro em São Paulo
Pessoas "boníssimas" foram dar seu apoio, no vão do MASP, a Bolsonaro, a Polícia Militar por saber quem são, levou fotos para identificar suspeitos já procurados por vários crimes.

Ao final da manifestação as prisões totalizavam 11 presos do grupo que estava manifestando Pró Bolsonaro. Grupo esse, formado pelo "ultradefesa", "união nacionalista" e "carecas". Foram identificados 8 pessoas que estão sendo investigadas, uma por homicídio e as outras por participação de forma violenta em outros atos racistas e homofóbicas.


Foto do O Globo

Foram apreendidos pela PM pedaços de madeira, metais e estrelas ninjas como essas da foto.

Muito meigo esse pessoal que apóia o racista, homofóbico, machista deputado.

Fotos que o Raphael, do Blog do Tsavkko - The Angry Brasilian , fez durante a "meiga" manifestação em defesa do Bolsonaro.

Vou aguardar o post do Tsavkko que com certeza virá com mais imagens, videos e análise de quem estava lá, do outro lado, na manifestação CONTRA o racista, homofóbico, machista Bolsonaro.




Afinal porque "gente de bem" precisa esconder o rosto em uma manifestação?


Cinco se escondem com toucas ninjas, tutto buona gente?







Postado por LHA no MUNDO CÃO S/A em 4/10/2011 09:40:00 AM

Ditadura: entender para não esquecer.

 

O significado da democracia
As conspirações contra as instituições e as demonstrações de insubordinação nos anos 1950 e 1960, além de frequentes, se alimentavam quase sempre do velho (e, no caso, paradoxal) argumento da defesa da legalidade constitucional e da democracia. Uma delas, inclusive, poria fim justamente à ordem legal e democrática que marcou o período pós-Estado Novo, iniciando um ciclo autoritário que perduraria por 21 anos, deixando graves sequelas das quais ainda hoje tentamos nos livrar. O artigo é de Douglas Attila Marcelino.
Douglas Attila Marcelino (*)

Durante os anos 1950 e 60, foram várias as ameaças ou tentativas de golpe militar que assolaram a sociedade brasileira. As conspirações contra as instituições e as demonstrações de insubordinação, além de frequentes, se alimentavam quase sempre do velho (e, no caso, paradoxal) argumento da defesa da legalidade constitucional e da democracia. Uma delas, inclusive, poria fim justamente à ordem legal e democrática que marcou o período pós-Estado Novo, iniciando um ciclo autoritário que perduraria por 21 anos, deixando graves sequelas das quais ainda hoje tentamos nos livrar.

Diversas foram as motivações de sublevações como a que ocorreu em 1964, sobretudo se considerarmos os elementos pontuais ou episódicos envolvidos em cada caso em particular. Outras causas, mais frequentes, apontam para o temor ao fortalecimento das mobilizações populares, para o medo do comunismo, do socialismo e outros “ismos” sempre indigestos aos setores conservadores (anarquismo, trabalhismo, populismo etc.). Isto, sem falar, é claro, nos fatores econômicos de mais longa duração que tanto chamaram a atenção de sociólogos e cientistas políticos nos anos 1970 e 1980 - os primeiros de fato a produzirem estudos mais sistemáticos sobre a ditadura, num período de forte predomínio acadêmico do marxismo (1).

Além desses aspectos, muito complexos para serem tratados aqui, dois traços da época parecem pouco percebidos: o ranço autoritário que marcava a cultura política brasileira (2), que pode ser visto na “elasticidade semântica” com que era utilizada a palavra democracia; e certa legitimidade moral de que gozavam os militares perante alguns segmentos da sociedade, que os percebiam como verdadeiros guardiões da ordem legal. Se tomarmos aqui quatro casos exemplares de golpes ou tentativas de mesmo teor nos anos 1950 e 60 - referentes aos anos de 1954, 1961, 1964 e 1968 - poderemos apontar como, pelo menos, um desses dois aspectos acabou perdendo seu vigor, enquanto o outro continua sendo um dos grandes desafios à consolidação da democracia no Brasil.

Comecemos pelo exemplo de agosto de 1954: tudo já parecia pronto para a deposição de Getúlio Vargas e, não fosse o suicídio do presidente, os setores militares e oposicionistas teriam tomado o poder argumentando a “defesa da ordem e das instituições democráticas”. Somente um gesto de tamanho significado simbólico (o suicídio do presidente) parece ter tido o potencial de modificar o quadro político de um Getúlio completamente acuado, vituperado constantemente pela imprensa que, desde o evento da rua Tonelero, acentuava suas críticas contra o “mar de lama” que assolaria o Palácio do Catete. O suicídio de Vargas, aliás, serve para demarcar como qualquer tentativa de manipulação da opinião pública acaba sendo limitada diante do simbolismo de determinados eventos: era impossível, aos grandes jornais que faziam oposição no período, não destacar o caráter impressionante e a grandiosidade das manifestações e da comoção popular geradas pela morte de Getúlio (até porque a morte do político gaúcho fortalecia mitos de grande apelo no imaginário nacional, como o do sacrifício pela libertação da pátria do jugo estrangeiro, amplificado no “lugar de memória” que se tornaria a carta-testamento) (3).

O ano de 1961 é igualmente exemplar: a inesperada renúncia do presidente que parecia, finalmente, ter conseguido alçar as forças conservadoras à chefia do Executivo pelo voto popular fez novamente ressurgirem as ameaças e suspeitas de golpe contra a democracia. O até hoje incompreensível gesto de Jânio Quadros, geralmente interpretado como uma patética tentativa de se perpetuar no poder, impulsionou mais uma tentativa militar de interromper o processo democrático a partir do impedimento da posse do vice-presidente João Goulart, que se encontrava numa viagem oficial à China. Desta vez, entretanto, o argumento pela defesa da ordem e da democracia contra a ameaça comunista (que Jango supostamente representaria) se mostrava forçado demais: a ênfase no respeito às instituições feita pela Rede da Legalidade (movimento liderado por Leonel Brizola, mobilizando o povo gaúcho a resistir às investidas contra a democracia) era, sem dúvida, mais crível e a solução encontrada, o regime parlamentarista, impediu o golpe por meio da limitação do poder presidencial.

1964: novamente o argumento da defesa da democracia e da legalidade seria utilizado em favor do rompimento da ordem constitucional, desta vez com êxito dos conspiradores e consequências mais profundas para o país. Naquele momento, a guinada do governo Jango em favor da aprovação das “reformas de base” e os boatos sobre suas possíveis manobras para manter-se no poder davam mais substância ao forçado argumento da legalidade e da democracia, fazendo com que os conspiradores militares gozassem de maior apoio de determinados segmentos, como parte das camadas médias urbanas (que produziram suas cruzadas contra o comunismo e o ateísmo nas autodenominadas Marchas da Família com Deus pela Liberdade). O desfecho já sabemos: nada de uma rápida “intervenção saneadora” da vida pública, como se argumentava e foi usual até então, mas sim vinte e um anos de um violento regime que não respeitava direitos humanos dos mais elementares.

O argumento em defesa da democracia e da ordem legal seria novamente ouvido em 1968. O aumento significativo das manifestações contra a ditadura, materializado em eventos marcantes como a “marcha dos cem mil” e as passeatas e protestos estudantis, casava-se perfeitamente com os anseios daqueles que há tempos já apregoavam um fechamento ainda maior do regime (tudo, é claro, em favor da democracia). É difícil ponderar até que ponto 1968 representou realmente um golpe (o chamado “golpe dentro do golpe”), já que, no fundo, a data parece apontar mais uma acentuação das características autoritárias do regime político implantado em 1964. Aliás, é curioso notar que fórmula semelhante à expressão “golpe dentro do golpe”, recorrentemente utilizada para criticar a ditadura, foi empregada inicialmente por Costa e Silva, em seu primeiro pronunciamento após a decretação do Ato Institucional n. 5: “sempre que imprescindível, como agora, faremos novas revoluções dentro da Revolução”, diria o marechal num discurso feito durante a cerimônia de formatura de oficiais da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), no Rio de Janeiro. Na segunda quinzena de novembro de 1968, coronéis da ECEME já haviam redigido um documento conclamando Costa e Silva a comandar “uma revolução dentro da Revolução”.

As divergências entre os grupos militares, indicada pelo uso das expressões “linha dura” e “linha moderada” (empregadas inclusive para explicar a mudança de 1968, devido à vitória dos “duros”), portanto, não pode obscurecer a existência de aspectos comuns entre eles, como o desprezo pela democracia e o apego ao uso da força contra os adversários. O Ato Institucional n. 5, decretado em 13 de dezembro de 1968, institucionalizava tudo isso, “legalizando” práticas autoritárias e dando ao presidente da República poderes para fechar o Congresso Nacional, cassar mandatos parlamentares, suspender direitos políticos, remover ou aposentar funcionários, entre outros atos de força contra setores oposicionistas.

De fato, os quatro casos mencionados servem para ilustrar aquilo que já destacamos sobre os traços autoritários que marcavam a cultura política brasileira na época e a crença de determinados setores no caráter “salvacionista” dos militares. No primeiro caso, o uso elástico do termo democracia, várias vezes empregado em favor do próprio rompimento das instituições democráticas, serve para exemplificar como aquele não representava ainda um valor realmente solidificado na sociedade brasileira (pelo menos, no sentido que pretendemos dar hoje à noção, quando as instituições democráticas parecem mais estabelecidas no país). Por outro lado, as sucessivas ameaças ou concretizações de golpes com participação de militares indicam certo messianismo atribuído à instituição que, desde a implantação da República, foi paulatinamente aumentando sua importância na sociedade brasileira, até assumir uma espécie de “papel moderador” após 1945 (em contraposição ao “papel desestabilizador” da Primeira República, segundo José Murilo de Carvalho) (4).

Para alguns segmentos sociais nos anos 1950 e 1960, os setores castrenses apareciam como símbolos de retidão moral, como reserva dos verdadeiros valores da nacionalidade e, por isso, aptos a intervir para salvar a República. Uma representação, diga-se de passagem, que os próprios membros da corporação quase sempre prezaram, considerando-se superiores aos civis, que, além de corruptíveis, seriam desapegados dos valores cívicos.

De todos os casos mencionados, o de 1968 é aquele que teve mais consequências para a reformulação de um dos traços que indicamos como marcantes da sociedade brasileira dos anos 1950 e 1960. O endurecimento da ditadura, que, no fundo, significava a opção pelo uso cada vez mais acintoso da força contra aqueles que se opunham ao regime, institucionalizando a tortura e a eliminação física dos opositores, demoraria apenas alguns anos a repercutir na opinião pública e macular a imagem límpida que alguns segmentos sociais ainda possuíam da corporação militar. Sem dúvida, esse processo não foi “total”, pois não é difícil encontrar, ainda hoje, algumas manifestações nostálgicas em relação ao período autoritário (tido como época da ordem e do pleno emprego, por exemplo). Ele também não foi automático ou simultâneo, já que os êxitos econômicos e a rígida censura do governo Médici ajudaram a escamotear a faceta autoritária do regime no início dos anos 1970, ao passo que o processo de “abertura política” do período Geisel seria realmente aquele que (apesar de suas ida e vindas) possibilitaria maior exposição das mazelas da ditadura.

Portanto, seria apenas a partir de meados dos anos 1970 que os casos mais graves de sevícias e maus-tratos contra presos políticos se tornariam mais conhecidos, o que não tira a importância da opção feita em 68 para a desconstrução da imagem positiva dos militares: muitas pessoas que viam com bons olhos o regime instaurado em 1964 passariam a reavaliar sua posição sobre o papel da corporação na política brasileira devido ao aumento da violência repressiva. Foi, de certo modo, o que aconteceu com parte dos setores médios da sociedade, que, depois de ajudar a promover as marchas da família contra o suposto comunismo de Jango e regozijar-se com o “milagre econômico”, acabou sendo sensibilizada quando a repressão bateu mais diretamente na sua porta (pense-se, por exemplo, no caso das “marchadeiras” que tiveram filhos ou parentes próximos levados a conhecer os “porões da ditadura”). Um exemplo ilustrativo nesse sentido e que tem mais importância por sua repercussão na opinião pública é o da mudança de postura da maioria dos grandes jornais: depois de apoiar e demandar a “revolução gloriosa de 1964”, muitos deles passariam, aos poucos, a empregar termos como golpe, ditadura e condenar o regime político comandado pelos militares.

A opção pela “ditadura escancarada” de 1968 (para usar a feliz expressão de Elio Gaspari) (5), portanto, trouxe maiores conseqüências à imagem dos militares, que parecem ter realmente perdido a batalha pela memória sobre o período dos anos 1960 e 1970. Mas, se certo estigma parece ter recaído sobre a corporação (a ponto de, hoje, a sociedade brasileira não saber muito bem o que esperar ou o qual o verdadeiro papel das Forças Armadas), resta ainda o outro desafio mencionado: o que permanece da cultura política autoritária que caracterizava a sociedade brasileira e que foi, de alguma forma, estimulada pelo regime militar? Quais os usos possíveis da palavra democracia hoje? Palavras, como sabemos, não têm significado por si mesmas, mas são dotadas de sentido a partir das relações estabelecidas dentro de um contexto que possibilita ou interdita determinados usos. Que significados a palavra democracia ainda pode comportar hoje em dia na sociedade brasileira?

(*) Doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de Subversivos e pornográficos: censura de livros e diversões públicas nos anos 1970. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2011 (no prelo).

NOTAS

(1) Ver FICO, Carlos. Além do golpe: visões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar. Rio de Janeiro: Record, 2004.

(2) Pela natureza deste texto, utilizo aqui de forma bastante livre o conceito de cultura política. Gostaria de ressaltar, entretanto, que tal uso não exclui a percepção da pluralidade e da complexidade das diferentes culturas políticas presentes na sociedade brasileira dos anos 1950 e 1960 (um aprofundamento nesse sentido inviabilizaria este artigo).

(3) Mesmo os jornais que faziam oposição a Vargas destacaram com detalhes as cenas impressionantes de manifestações populares que se seguiram ao suicídio. O periódico O Globo, por exemplo, que foi impedido de circular no dia 24 de agosto de 1954 devido aos ataques populares contra a sede do jornal, publicou na tarde do dia 25 uma das mais conhecidas imagens do enorme cortejo fúnebre de Getúlio Vargas (a imagem foi reproduzida na capa do jornal).

(4) CARVALHO, José Murilo de. Forças Armadas e Política no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

(5) GASPARI, Elio. A ditadura escancarada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.